" Hoje, em devaneios sem propósito nem dignidade que constituem grande parte da substância espiritual da minha vida, imaginei-me liberto para sempre..."
(O LIVRO DO DESASSOSSEGO - FERNANDO PESSOA)
Sim, finalmente liberto, no meu caso, liberto da impulsividade, da procrastinaçao, da insatisfação, da inadequação, da...
Em essência me liberto do pacote que me trouxe o TDAH ainda na maternidade. Ou antes dela...
Começo a viajar por uma vida sem essas características: uma vida de equilíbrio, plena de satisfação e amor próprio. Uma vida planejada, pensada, com tudo a tempo e a hora. Um banho de prazer toma conta de mim. Assim seria minha vida 'normal'. A cada tropeço identifico sua causa e não a repito. Reconheço seus sinais e rapidamente os evito. Sinto um enorme orgulho de mim.
Ali estou diante de um enorme espelho d'água que reflete a paisagem ao meu redor. Estou em um campo tão perfeito que parece um cenário. Não há moscas, não há buracos, não há ervas daninhas... Nada. Olho ao meu redor e reconheço a paisagem, cada detalhe dela está refletida naquele magnífico espelho d'água. Mas estranhamente eu não apareço na imagem. Tudo ao meu entorno está ali. Cada mínimo detalhe da natureza que me cerca é refletido no espelho d'água. Menos a minha imagem.
Como num sonho absurdo, constato sem a menor surpresa que minha imagem não está refletida ali porque eu não estou presente. Eu não estou naquele cenário.
Eu não sou sem o TDAH. Não existo sem ele. Eu sou ele.
Li que o álcool faz parte do corpo do vinho, intrínseco a ele...
Pois é. Sou indissociável do TDAH.
Sem ele não existe eu.
Não há como combater o TDAH. Não há como curá-lo. Não se cura da própria existência ou essência.
Minora-se. Mitiga-se. Reduz-se. Convive-se.
Combatê-lo. Enfrentá-lo. Derrotá-lo. Jamais!
Nasce-se com ele, morre-se com ele.